quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Alquimia Nacional

Em épocas de escassez e miséria, período que representa uma eternidade em nosso país, vemos as pessoas levantarem as mãos para os céus, para os amuletos e tudo quanto é adivinhação futura, porque a vida, bestial, impassível, cruel, está sempre em seus piores dias e empurra a massa para a borda do além, para tentarem ver através do véu o que seus deuses estão tramando.

Engraçado é que os problemas nunca encontram origem em suas estupidezas, em suas negligências com o trabalho e a família, com o aprendizado... Daí entra o charlatão, que desce dos céus nas cores do arco-íris e vem até o falido de alma para dizer que do pó negro das necessidades, virá o ouro. O alquimista nacional não tem a menor pretensão de forjar um grande truque aos olhos famintos da massa. Tudo o que ele faz será novidade, e toda novidade se converterá em ouro!

O que falta de real ao necessitado, cresce em fantasia. Tudo o que puder ser explorado, será retornado. E o ouro virá dos pobres, quando eles nem sabiam que têm! Trazendo esse contexto superficial para a realidade, vemos na Tv o casal de mãos dadas e bem vestido, dizendo que a partir da comunhão que fizeram na Igreja Universal, que agora eles prosperaram, que agora eles têm trabalho e carro na garagem. Abramos as portas do Universal charlatanismo e pensamos que dentre milhares de fiéis um casal pode ter sido um dos usados para dar fôlego à crença, sendo que uma igreja tão poderosa quanto essa pode se dar ao luxo de pagar o fiél e usá-lo por uns meses só pra ele ir lá e fazer uma propaganda "sem compromisso". É um truque fácil: O irmão é acionado por uma empresa que lhe sorri e o quer para presstar um serviço. Pode ser uma empresa que acredita em Deus. Paga-se bem esse otário. Dà-se-lhe um benefício extra, um ombro amigo por uns meses, e ele fica cozinhando nessa panela. Tendo uma condição melhor e filiado à igreja, é custo zero prestar seu testemunho a hora que ela precisar. A Universal estala o dedo, e o recém-abençoado vai sem hesitar. O que o otário não saca é que a empresa que o contratou é uma parceira da Universal. E isso fica tão oculto quanto as testemunhas que ainda estão em espera das bênçãos que viu na Tv. Esses fracassados pra Universal, ainda não gritaram o suficiente pra Deus ouvir, exigiram pouco, ou não foram ao culto dos 318 (quão específicos!). O miserável azarento não precisa existir para as câmeras. Vai dar depoimento de quê? De que outro dia seu cachorro magro encontrou comida e isso foi pela graça de Deus? Cai fora! E sendo as câmeras o mundo que o fiel dopado abraça, logo está construído o céu perfeito dos fiéis que ofertaram e aconteceram, e agora estão justificados pela lente do broadcast divino.

Claro que ninguém da Universal acredita no que eu falo, porque esse texto é satânico demais e tem mensagem cifrada. Cada parágrafo aqui, resultado, vai dar exatamente 666!

É isso! As pessoas querem testemunhos de vida, querem atribuir toda glória a Deus, sem precisar perceber em que antro estão metidas! É isso, é sensacional a fórmula! Não pega nada pra quem é dono do negócio. E depois todos se regozijam com o crescimento de vários no meio evangélico. CDds de cantores, de firmas, programas de rádio, deputados... Claro, porque onde tem dinheiro, tem prosperidade, e quem prospera é abençado de Deus!

Por que sempre caio na Universal? Oh Deus... Mas continuemos com a cultura latina dos derrotados...

Paralelo a isso, temos a Loteria, a Tele-Sena, Mega-Sena, etc, onde alguns babacas ganham dinheiro e pela fezinha deles, precisam se vender ao marketing e dizer: "Olha, eu comprei e deu certo. Vale a pena acreditar!". E fica brandindo o talão como um verme que recebeu alguma graça. Claro! Um sempre vai ganhar. Vai ganhar o dinheiro dos milhares envolvidos. Por trás é só um sistema de sorteio de números!! Percebe a ilusão? Tentar, tentar, tentar porque um dia você vai conseguir! Pode-se apostar todo o dinheiro ganho, que você não ganha novamente. Tranquilo. Para os donos do poder alquímico basta transmutar a vida em sorte. Para isso, basta aparecer um ganhador para os céus se abrirem. Num país de pobres isso é a isca perfeita porque cria fantasias suficientes para mover a massa vazia de si mesma.

O Brasil é feito disso: pessoas arrasadas, mas com o contentamento da ilusão, com a necessidade de acreditar na exploração invisível, enquanto uns poucos mais espertos aprendem como lidar com a sede supérflua. Não há tanto amor assim na sua igreja, meu querido. Há burros e espertos. Tire o dinheiro dos seus pastores e você vai ouvir suas blasfêmias. O alquimista nacional não busca favorecer seu povo, ele se camufla em suas necessidades vigentes. O alquimista tirando do seu robe um vidro secreto pode espalhar o ouro branco à sua vista, que não é na verdade o pó negro dos seus problemas transformados. É só aquilo que outros entregaram pra ele, em vista do que ele agora vem fazendo com você.

Vamos a uma grande lição, por David Hume [1711-1776]:

"Nenhum homem precisa se desesperar para convencer os outros das suas hipóteses mais extravagantes se tiver arte suficiente para apresentá-las em cores favoráveis".

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